No dia 21.06.2020 o Maranhão superou o número de 70 mil casos confirmados da Covid-19 (MARANHÃO, 2020). Apesar da flexibilização das normas de isolamento e gradual reabertura do comércio em muitos municípios, o número de registros ainda é crescente, especialmente, nos municípios do continente. Consequentemente, quando lançamos o olhar sobre os municípios que incidem sobre Terras Indígenas no estado, observamos que os casos da Covid-19 continuam crescentes, conforme indica o mapa abaixo.

O aumento de casos confirmados da Covid-19 nos municípios do Estado incide diretamente na expansão de contágio entre os povos indígenas, visto a comunicação permanente entre municípios e aldeias, apesar do isolamento social e da adoção de cuidados sanitários que os indígenas vêm adotando como protocolo de segurança. Entretanto, ir as sedes dos municípios se faz necessário, ainda que em uma proporção bem menor de saídas das aldeias, para reproduzir a sua própria subsistência física através da compra de produtos alimentícios, vestuário, etc. que não se encontram nas aldeias, bem como, o acesso ao auxilio emergencial do governo federal. Por outro lado, a entrada também de não índios nos territórios das aldeias, apesar da vigilância dos indígenas, não deixou de acontecer por conta da pandemia. Então, a contaminação, acaba por se tornar uma via de mão dupla.

Os dados apresentados a seguir pelos boletins epidemiológicos do DSEI – Maranhão/SESAI e das Secretarias Estaduais de Saúde dos municípios registram esse crescimento de casos da Covid -19 entre os indígenas.

Na leitura da tabela acima observar-se que o primeiro caso de registro de confirmação de casos da Covid-19 entre indígenas no Maranhão, data do dia 13 de maio, porque anterior a esse período seriam os casos suspeitos registrados nos boletins do DSEI-MA/SESAI e continuamente descartados. E, mesmo quando aparecem nos boletins casos confirmados, é também significativo os casos descartados, com permanência bem baixa do número de indígenas com quadros de infecção ativa do vírus.

Essa alteração de proporção vai acontecer no momento em que o número de confirmados aumenta 140% (esses dados podem ser observados nos boletins entre os dias 20 e 21 de maio), com casos ativos que ultrapassam o número de descartados. A partir dessa data referida, o quadro evolutivo do novo coronavírus entre os indígenas aumenta gradativamente. Em oito dias corridos após esse pico de evolução, um novo quadro evolutivo se apresenta, ou seja, se passa de vinte e um (21) casos confirmados na data de 21 de maio, para 76 casos na data de 29 de maio. Ou seja, um acréscimo de 261.9%, com alto grau de casos com vírus ativo (73) e uma (01) cura clínica. A partir desse quadro evolutivo de incidência de casos confirmados com baixíssima cura clínica, se dá o primeiro caso de óbito entre os indígenas, registrado pelo DSEI-MA/SESAI no dia 04 de junho. Esse número eleva-se para sete (07) óbitos na data da última coleta feita pelo coletivo Mururu em 20 de junho de 2020.

Abaixo, o gráfico dos dados da tabela da SESAI/ DSEI-MA acima analisados.

Os boletins epidemiológicos da SESAI coadunam com a invisibilização dos povos indígenas assim como os boletins dos municípios, com um agravante no que se refere à primeira. A  publicação da SESAI cita números brutos, seguindo uma estrutura de diálogo entre variáveis epidemiológicas e número de casos para cada variável. Exemplo, olhando para tabela e gráficos acima, não se consegue dizer o nome do povo, a qual Terra Indígena ele pertence, à aldeia, etc.

Em contrapartida, os casos registrados pelos municípios, se não seguem os princípios etno-linguísticos dos povos indígenas existentes no Maranhão, pelos menos apresentam indícios de onde buscar esses dados por povos, pois permite que rastreemos a partir do dado “aldeia” e “TIs”, quais são os povos que estão sendo atingidos pela Covid-19. Entretanto, não citam os óbitos. A única leitura que se consegue fazer nos boletins de alguns municípios é o registro de casos confirmados. Mas não se consegue acompanhar o quadro de evolução da doença.

 A nossa intenção, enquanto coletivo que pretende ser parceiro nessa empreitada de dar visibilidade à situação sanitária dos povos indígenas é construir dados qualitativos sobre esses diversos povos localizados no Maranhão. Nesse contexto, foi construída a tabela que segue, discriminando os povos nos quais esses municípios incidem, bem como a qual pólo-base os mesmos são vinculados administrativamente.

Como foi falado acima, com base nas pesquisas do Coletivo Mururu, foi possível identificar os povos em relação aos municípios que fazem referência ao atendimento de saúde. Ao visualizarmos a referida tabela se percebe que o povo indígena mais atingido pela Covid-19 são os Tentehar/Guajajara. Percebe-se que o povo indígena mais atingido pela pandemia é o Tentehar/Guajajara visto que possuem a maior população indígena no estado e, também, por estarem distribuídos em 10 terras indígenas demarcadas (além de residirem em terras de outros povos). Dessa forma, fora o município de Fernando Falcão, onde estão localizados os Apaniekra/Canela e os Ramkokamekra/Canela, os Tentehar/Guajajara estão localizados nos vários municípios que registram casos da Covid -19.

Como se pode observar acima, os casos confirmados da Covid-19 entre os Tentehar/Guajajara já somam mais de 390 casos se levarmos em consideração que nesses municípios, onde residem mais de dois povos indígenas, a prevalência é do povo Tentehar/Guajajara, bem como na terra indígena Arariboia, onde, além deles, vivem os Awá (povo que possui grupos de recém contato e outros em isolamento voluntário). Supomos que os povos contaminados na TI Governador são os Gavião/Pukobyê, uma vez que estão em maior número nessa terra, na qual se registra quinze (15) casos. No entanto, lá também residem os Krenyê. Mas os municípios não registram qual é o povo indígena. 

Com referência aos povos Canela, Apaniekra e Ramkokamekra, já se registram oitenta e três (83) casos confirmados, sendo oitenta (80) entre os Ramkokamekra da aldeia Escalvado e da aldeia Velha e três (03) entre os Apaniekra da aldeia Porquinhos. Já com referência ao povo Krikati, se levarmos em conta que eles são a maioria nesses municípios, em detrimento do povo Guajajara que habita essa TI, são quarenta e sete casos (47) distribuídos em dois municípios, Montes Altos e Sítio Novo, respectivamente nas aldeias São José e Nova Jerusalém.  

Abaixo apresentamos o gráfico com os dados dos casos da Covid-19 entre a população indígena dos municípios com a intenção de dar visibilidade à evolução dos casos. Segue o gráfico e a análise do mesmo entre os dias 31 de maio, 10 de junho e 21 de junho de 2020.

Em relação ao número de casos confirmados que foram coletados nos dias referidos no parágrafo anterior, pode-se observar que o município de Amarante, identificava na TI Arariboia inicialmente seis (06) casos no primeiro boletim (em 31 de maio de 2020), aumentando para onze (11) e diminuindo para nove (09) casos no dia 21.06.20. O que implica casos de cura, ainda que não mencionados no boletim que só registra casos confirmados.

 Ainda no mesmo município, na T.I Governador, que registrava inicialmente sete (07) casos, diminuindo para seis (06) e aumentando, em seguida, para quinze (15) casos. Em Arame, observa-se inicialmente, vinte e três (23) casos, aumentando para setenta (70) e subindo para noventa e dois (92) casos, no dia 21.06.20.

O município de Barra do Corda no primeiro boletim não apresentava casos indígenas da Covid -19. Já no segundo boletim do dia 10.06.20 notificaram um (01) caso e no dia 21.06.20, quatorze (14 casos). Aqui, registra-se, um aumento percentual elevado de contaminação de 1.300% se contarmos a partir do primeiro boletim no qual não se registrava nenhum caso.

Em Bom Jardim, o boletim epidemiológico, inicialmente, registrou vinte (20) casos indígenas. Já no boletim do dia 10.06. 20 os casos registrados evoluíram para trinta e quatro (34) casos e no dia 21.06. 20 para oitenta (80) casos. O município de Fernando Falcão, assim como Barra do Corda, no primeiro boletim não apresentou nenhum caso da Covid-19 entre indígenas. Já no segundo boletim do dia 10.06.20 apresentou trinta e um (31) casos, aumentando consideravelmente para oitenta e três (83) casos no último boletim datado de 21.06.20. Identificamos um percentual elevado de contaminação na taxa de 167,74% se contarmos a partir do primeiro boletim no qual não se registrava nenhum caso.

Jenipapo dos Vieiras segue o aumento percentual significativo identificado nos outros municípios citados anteriormente. No primeiro boletim não identificou nenhum caso indígena de contaminação. Já o segundo boletim do dia 10 de maio de 2020, registra oitenta e sete (87) casos e no dia 21.06.20, registra um número de 170 casos, o que em termos percentuais equivale a 95,4% de indígenas contaminados em um curto espaço de tempo.

No boletim de Montes Altos são registrados cinco (05) casos no dia 31.05.20. No boletim seguinte, onze (11) casos. O último boletim de 21.06.20 registra vinte (20) casos em Montes Altos, o que aparenta ser um caso de estabilidade em termos de evolução dos casos de contaminação, apesar de se saber da existência de casos subnotificados em relação à população indígena. Por fim, o município de Sítio Novo, que manteve os mesmos 27 casos nos três boletins em destaque. Temos como hipótese uma situação de estabilidade na contaminação dos povos Krikati que habitam ambos os municípios ou subnotificação dos casos. 

Entretanto, uma das perguntas que nos instiga nesse momento diz respeito ao sistema de saúde e seu funcionamento. Se o atendimento à saúde dos povos indígenas compõe um sistema que dialoga entre si (unidades básicas de saúde/postos de saúde, pólos-base, CASAI, DSEI-MA, SESAI), em diferentes níveis (local, estadual, nacional), por que a SESAI e os municípios não dialogam? Por que os dados (quantitativos e/ou qualitativos) são apresentados de forma desigual? E o mais grave, por que não registram os casos de Covid-19 entre indígenas a partir da diversidade étnica dos povos?

Desta forma, encerramos mais um Boletim Epidemiológico Completo apontando uma série de análises referentes aos dados que conseguimos coletar até a presente data, levantando questionamentos, apontando a importância das redes de mapeamento nesse processo de visibilidade dos impactos da pandemia entre os povos indígenas no estado do Maranhão e reiterando a necessidade de políticas públicas que assistam a esses povos. Seguimos na luta cotidiana em busca de informações que nos ajudem a ampliar nossa rede e ratificamos a importância do diálogo com os próprios indígenas e apoiadores dessa causa tão urgente e necessária.

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